sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Projeto Codinome


Introdução

O Projeto Codinome é um conto de ficção computacional, se é que posso chamá-lo assim. Ele conta a história de uma estranha história de amor, com um enredo bem aproximado de um roteiro holiwoodiano, como as boas e velhas histórias em quadrinhos, da qual o autor, como os leitores bem poderão perceber, leu bastante. O conto não 'divaga' com profundidade sobre o assunto que trata, já que o interesse principal do mesmo era o de divertir, mas cabem algumas desnecessárias palavras introdutórias aqui, bem posicionadas no contexto, já que isso é uma introdução mesmo. O ser humano é algo extraordinário e a pessoa humana, o pensamento, sua capacidade de raciocínio, seus sentimentos, sua consciência de vida e existência estão num patamar desconhecido pelo próprio homem. Lembro-me que quando era mais criança, li um livro de um famoso médico cujo título era "O homem, esse desconhecido" e numa visão científica da época de cinqüenta ou quarenta (também não me imagine tão velho assim, afinal quando o li já foi uns trinta anos depois de seu lançamento), ele varria o interior do homem físico, falando da complexidade e maravilha dos inúmeros sistemas orgânicos do ser humano. Essa multidiversidade do corpo humano lhe faz se assemelhar com um micro universo. E por mais assombroso que seja o homem físico, ele é apenas sombra do homem espiritual, ou psíquico. Os processos cognitivos do homem, e sua capacidade criadora e imaginativa vão mais além ainda. Como se tudo isso não fosse suficiente ainda possui a inusitada capacidade de sonhar. E como se não bastasse, este ser de tamanho médio entre uma subpartícula atômica e uma estrela gigantesca, ainda foi dotado da interessante característica de amar. A existência humana transcende a realidade físico-química em que ele subsiste. Dentro dessa incompleta, porém eficiente análise daquilo que é o homem, podemos nos lançar na aventura de reconstruir seu intelecto a partir de estruturas lógicas e de programação computacional e veremos, ou melhor, constataremos, que a tentativa vaga de reconstruir parte da psique humana por um veículo ou um modelo de programação é algo extremamente infrutífero. Os processos visíveis divisáveis ou constatáveis do nosso pensamento são somente parte da nossa história, se é que você me entende... (não resisti a tremenda tentação de colocar este "se é que..."). Mesmo as mais modernas redes neurais, são somente representações tênues da nossa estrutura de "hardware" interno. A compreensão da existência (ainda que incompreendida) e (que me perdoem os puristas da ficção) a percepção da vida, é algo que a realidade virtual não pode conceder a mais perfeita máquina que um dia os sonhos mais loucos do homem venham a engendrar. Interessante nesse momento é mencionar algo que ainda não falei desde o início desta pequena, porém decente introdução. É sobre vida. A vida é outra realidade intangível acima da matéria, na qual o homem está mergulhado de maneira maravilhosa, apesar do romantismo. A vida não pode ser reduzida a números aleatórios ou a fórmulas matemáticas da teoria do CAOS. Processos físicos-quânticos (sou um cara meio ultrapassado nesses jargões científicos) e movimento de partículas ainda por descobrirem no limiar entre aquilo que convencionamos chamar de matéria e a energia são somente parte das estruturas sobre qual a vida se apoia. Mas, e daí, ô meu? E donde se encontra espaço, no espaço-tempo (em homenagem àquele Scott, ou melhor, Steve, um outro, o Nobel da Física que discorreu sobre o tempo, etc e tal) pra tanta filosofia num conto tão pequeno? Aqui mesmo, na introdução. O porquê dela é justamente a história da história, a qual em respeito aos meus amados leitores e ao suspense necessário à obra em discussão, não adiantarei nenhuma palavra. Seja bem vindo a um dos mais interessantes contos sobre computadores publicados na segunda metade do século vinte. A humildade sempre foi uma das minhas maiores virtudes. .

Do autor, esse famigerado.

Entardecia sobre a cidade. Uma frente fria se aproximava, trazido pelo vento sudoeste. O reflexo do por do sol na imensa fachada de aço e vidros espelhados da companhia, nos seus vinte e cinco andares de arquitetura arrojada, dava a impressão de uma imensa fornalha acesa. A sede da empresa era uma das mais automatizadas do país. Diziam os técnicos que ela era mais computadorizada que a própria NASA. Um pouco menos que Light & Magic, do George Lucas. Eram quinze horas e vinte e dois minutos quando um estranho entrou pela portaria do prédio sem dar satisfações a ninguém. Na sua entrada houve uma pequena diminuição da luminosidade do saguão. Na sala de controle do prédio uma tela avisando sobre a diminuição, pisca e apaga repentinamente. O operador da mesa não nota o aviso que deveria permanecer na tela, some misteriosamente. Antes que os seguranças pudessem abordar ao visitante, ele pulou sobre a roleta de permissão de entrada dos funcionários, entrou no elevador que fazia o percurso entre o décimo segundo e o décimo oitavo andar, fechando a porta imediatamente, sob intensa reclamação dos seus ocupantes. Eles silenciam em uníssono quando percebem que ele tirou uma arma de dentro do sobretudo que usava. Os guardas correram em direção ao elevador, entretanto, este já subira. Chamaram, via comunicadores, o elevador de emergência. Pela primeira vez desde a instalação do sistema não houve resposta. Alguns elevadores travaram entre os andares e o sistema de telefonia teve pane geral. As telas dos computadores, estranhamente, não acusaram nenhuma anormalidade.

Os vidros da CPD estilhaçaram em todo o andar do imenso prédio ao tiro da cano doze, serrada, pelas mãos daquele estranho personagem, que momentos antes invadira o décimo oitavo andar, vestindo um grosso sobretudo azul. O olhar angustiado do louco de sobretudo se confundia com os gestos de terror de funcionárias se jogando no chão, misturado ao fósforo das telas dos micros que explodiam multicolores. Três unidades gigantescas que formavam o Backup dos bancos de dados da empresa fumegavam ao lado de mesas viradas. Perguntas desconexas passavam em turbilhão pela mente do gerente do setor. Não que estivesse despreparado para lidar com situações inesperadas, afinal aquela central era a mais problemática da corporação. Cinco sistemas operacionais rodando em vinte e dois tipos de mainframes (corte nos custos de padronização) com uma infinidade de aplicativos, não era o. que se podia se chamar de, desculpem o trocadilho, "rotina". Todavia, isto também, já era demais! A segurança nunca fora o forte do prédio. Na semana anterior acontecera um assalto nas instalações bancárias no segundo andar e a partir dali fora aberto um concurso para contratação de vigilantes. Poderia ser alguém do comando de greve... Não. As greves da empresa costumavam ser pacíficas. As instalações onde ficava o CPD eram provisórias. No alto da sala dezenas de sprinklers poderiam ser acionados a qualquer momento, através de uma pancada ou foco de incêndio localizado. Ainda não haviam instalado os sensores de fumaça e os jatos de CO2, mais adequados àquele tipo de instalação. Paciência.

O gerente resolveu dialogar com o indivíduo. Precisava de tempo para que os vigilantes, a polícia ou mesmo os bombeiros cercassem as instalações. O homem apontou a arma para o computador central. Se apertasse o gatilho, dez anos de desenvolvimento em softwares internos e toda a rede de comunicação virariam um monte de lixo. Alguém tinha que tomar a iniciativa.

- Pare! Por favor! Vamos conversar! bradou o gerente da CPD.

O homem se virou, tremendo, em direção da voz que ouvira. Seus olhos avermelhados estavam estranhamente sombrios. Encarou o gerente, que nessa hora quase desmaiou de pavor. A cano doze serrada estava apontada em direção à sua cabeça. Não que fosse fazer muita diferença, um tiro daquela distância. Sua voz soou semi-gutural:

- O que você quer. Murmurou...

O homem nem piscou para falar. Bem, já era um começo, o sujeito, ao menos, falava. Mesmo que não conseguisse nada nos poucos segundos de vida que ainda lhe restavam, o gerente se sentia orgulhoso pela aparente intrepidez demonstrada na presença de tantos funcionários. Haviam vidros laminados espalhados por todo lado. O ar condicionado central esvaziava um gás inodoro e esbranquiçado, entre as paredes externas congeladas da central de ar. O estagiário estava tão imóvel encostado na divisória esquerda que dava para confundi-lo com uma estátua. Um grupo de mesas estava virado, duas técnicas agachadas ao lado de monitores caídos. Havia muito papel espalhado. As divisórias centrais haviam quebrado quando o programador, ligeiramente obeso, tentou pular para se proteger dos tiros. Dois andares abaixo, três computadores explodiram sem que houvesse interconexão entre eles e a situação do décimo-oitavo. A rede começou um processo de auto-desligamento, na frente dos confusos usuários. Algumas luminárias fluorescentes começaram a emitir um zumbido característico. No subsolo a equipe que monitorava a tensão da rede nota que está acontecendo uma queda da freqüência da rede. Três segundos depois dois grupos geradores entram automaticamente em operação. Um programa de supervisão se auto-acessa e manda sozinho desconectar a rede interna de energia da rede externa fornecida pela concessionária. No momento do desligamento do disjuntor de alta-tensão do painel de interligação, toda a iluminação pisca. O ronco dos turbo-geradores aumenta assustadoramente quando assumem o fornecimento de luz para todo o prédio. Sete andares são completamente desativados quando a luz retorna. Os técnicos ficam sem entender o que está acontecendo. No décimo oitavo a crise continuava:

- Meu amigo, o que é Isso! O que o senhor quer? Metade do setor está destruído, Isto aqui não é um banco, não! Por favor, abaixe essa arma!

O gerente achou que desta vez havia ido longe demais. Logo agora, tão perto da aposentadoria. O homem tremia descontroladamente. Fixou os olhos no vazio e gritou.

- Vou destruir todos os computadores desta maldita CPD! Eles destruíram minha vida, minha vida... Vociferou o homem.

Tantas centrais de informática do mundo e um maluco que odeia computadores tinha que entrar logo na minha! Pensou o gerente. Respirou profundamente, olhou para o homem e disse:

  • Vamos conversar, por favor, nós não temos nada a ver com sua cruzada pessoal contra os computadores. Conte para nós sua história. Já que você vai destruir tudo mesmo...

O gerente aprendera algumas sutilezas psicológicas num curso de Criatividade, algumas semanas antes. Nesta hora percebeu que o demente não atirara, até aquele momento, ao menos, em ninguém diretamente. Apesar dos ferimentos causados por estilhaços, seu objetivo parecia ser o de realmente destruir os computadores. A unidade de fita em curto-circuito começou a incendiar. O estagiário desmaiou. O baque surdo de sua queda não distraiu o homem. Ele ainda tremia quando sua mão afrouxou. A arma foi sendo abaixada até ficar rente ao chão. O suor frio escorria da testa do homem. Aparentemente, parecia hesitar. Era como se não existisse mais sentido, nem para a vida, nem para o que queria realizar naquele lugar. Uma expressão de dúvida tomou o seu rosto. Balbuciou alguns sons mal articulados, enquanto andava de um lado para o outro, à vista dos atônitos funcionários. Começou então a contar sua surpreendente história:

Meu nome é Scott Thomas, sou ex-chefe de gerência de projetos da Nortwell Consultoria em Segurança de Informação. Minha triste história começou há dois anos. Chefiava uma equipe que trabalhava na arquitetura do mais sofisticado sistema de segurança da época, o Death Key. Seu sistema de criptografia era perfeito. O chamávamos de rocha inacessível... Estava diante de dois monitores de múltiplo acesso cuja tela ela subdividida em telas menores, para recepção de chamadas de clientes externos e os testes dos aplicativos gerados pela firma. Naquele dia havíamos bloqueado todos os acessos e tentávamos quebrar interna e externamente a segurança do sistema. Quase às onze horas da noite, após treze horas ininterruptas de testes, contando com o apoio de dois minis e um supercomputador acessado via Internet, chegamos a constatação de que o sistema era virtualmente inviolável. O último funcionário deixou a empresa quinze para meia-noite. Estava para desligar todos os equipamentos quando uma das doze sub-telas do monitor dois começou a piscar. Ampliei-a para tela inteira e alguns segundos depois o impossível aconteceu. Alguém acessou nosso sistema externamente! A tela se tingiu de um azul celeste, dando lugar, a seguir; a uma seqüência de animação tridimensional. A seguinte mensagem apareceu na tela.

"- Vo soy ardiente, yo soy morena,

Vo soy el siinbolo de Ia pasión

De ansia de goces mi alma está Ilena

A mí me buscas ?

No es a ti; no.

- Mi frente es pálida; mis trenzas de oro;

Puedo brindarte dichas sin fin;

Vo de ternura guardo um tesoro. A mí me Ilamas?

No; no es a ti.

- Vo soy un suefjo, un imposible,

Vano fantasma de niebla y luz;

Soy incorpórea, soy intangible;

No puedo amarte.

Oh! ven; ven tú!"

Neste momento a narrativa é interrompida pelo homem, que num frêmito de ira torce o rosto, apontando a arma para um micro sobre a mesa da secretária. Ele grita ao mesmo tempo em que dispara:

- MALDITA! ! !

O barulho ensurdecedor do micro explodindo, juntamente com metade da mesa, é assustador. Rose, a secretária, grita enquanto tampa os ouvidos; um programador vai se arrastando até o corredor, passando sobre o estagiário desmaiado. Do lado de fora da sala um grupo de pessoas corre desordenadamente sem entender o que está acontecendo. Uma equipe da polícia com equipamentos especiais, capacetes e armamento pesado sai do elevador auxiliar, passando pelo meio da turba que corre para as escadarias. O elevador parou no décimo sétimo andar, embora fosse solicitado o décimo oitavo. Por algum motivo desconhecido os equipamentos ligados a central não respondiam com exatidão aos comandos emitidos. Tão repentinamente como começou, Scott para seu violento ataque. Retoma sua história e comenta:

Não entendia. .Aquilo devia ser alguma brincadeira do grupo. A mensagem continuava cintilando na tela, neste instante, azul. Corri para a tela e apertei a seqüência de busca e reconhecimento. A mensagem era externa e em canal de áudio. Qualquer que fosse a pessoa que estivesse do outro lado ainda estava conectada on-line. Solicitei que se apresentasse, dissesse sua origem e porque havia acessado a Nortwell. Monitorei o numero discado, o código era nacional, porém o numero do telefone era inconstante. A resposta veio rápida e incisiva:

O que eu quero é você!

O mistério aumentou ainda mais. Uma poesia em um castelhano antigo, com pelo menos duzentos anos, e o que parecia ser uma piada de mal-gosto. Antes que eu pudesse responder; quem quer que esteja do outro lado do modem, desligou. Ninguém acreditou quando eu falei. Minha equipe pensou que eu enlouquecera. Entretanto, quando os relatórios de acompanhamento de entrada e saída do sistema foram rodados constatou-se que eu não tinha bebido na noite anterior e que eu dissera a verdade. Uma bateria de testes, realizada aquele dia, não acusou nenhuma anormalidade. Mais outra noite fiquei até tarde. Estava sozinho, com todos os acessos externos bloqueados, quando a sub-tela doze começou a piscar novamente. Aquilo já estava virando rotina. Naquela noite consegui conversar com a pessoa do outro lado. Soube seu nome. Era uma Hacker de outra firma de desenvolvimento. de sistemas. Fiquei curioso.

A equipe especial da polícia armou um cordão de isolamento pelo décimo oitavo andar, mas a situação se complicava, agravando um início de incêndio num painel da subestação do décimo quinto andar. Um curto circuito explodiu o barramento de baixa tensão. Descobriu-se depois, que dali saía a alimentação para o Ar Central do décimo oitavo andar. O prédio todo apresentava sinais de anormalidade em todos os sistemas informatizados. A polícia teve que subir os dezoito andares pelas escadarias. Carros de bombeiro paravam do lado de fora do prédio, escoltados. Policiais militares que abriam caminho pelo meio da multidão de curiosos do lado de fora. O pânico generalizado tomou conta dos funcionários do prédio. Os atiradores de elite não conseguiam se posicionar próximo ao saguão do andar, por causa da espessa fumaça que já tomava conta do ambiente. A equipe médica tinha sido acionada há mais de dez minutos, mas com o numero elevado de pessoas desmaiadas pelos corredores se encontrava distante dois andares do centro nervoso dos acontecimentos. Três equipes jornalísticas se colocavam em postos estratégicos na avenida frontal, enquanto que, debaixo de estrondosas vaias do perplexo comando de greve à frente da empresa, um grupo de jornalistas corria para os arranha-céus, no lado que facetava as janelas estouradas, onde se via, lá de baixo, uma fumaça esbranquiçada se elevando. Foram da CNT as primeiras imagens gravadas de dentro da CPD. As tomadas trêmulas foram realizadas num andar contíguo do prédio vizinho, mostrando os estragos causados pelos tiros, muitos deitados no chão e dois homens conversando, um empunhando uma arma e gesticulando muito e o outro apoiado sobre uma mesa, a cerca de dois metros de distância do primeiro. As imagens da câmera desapareceram misteriosamente. O operador não entendeu o que estava acontecendo, pois o equipamento era novo e as baterias estavam carregadas. Na CPD o monólogo continuava. Os óculos do gerente embaçaram. Resolveu deixar como estava, afinal, com tanta fumaça, não necessitava muito ter que enxergar. Olhando pelo campo visual que ainda restava da lente, viu fios pela abertura do sobretudo do maníaco. Viu também algumas bananas de dinamite. Sentiu que ia desmaiar. Disse para si mesmo: "Não, agora não..." Resistiu. A história até que estava interessante, e a platéia forçada escutava atentamente.

Ele continuou:

Comecei a me envolver emocionalmente com a Hacker. Sua cultura era vastíssima, um poço sem fundo de conhecimentos. Explicaram-me naquela primeira noite quais eram os erros do sistema que haviam permitido a ela entrar na nossa rede. Ela era um gênio. Preferi avisar aos outros do grupo que não ocorreu mais nenhuma anormalidade. Havia encontrado um tesouro o qual não queria compartilhar com mais ninguém. As conversações via rede continuaram noites seguidas. Quando dei conta ela se tornara para mim uma obsessão. A cada dia ficava mais difícil justificar as horas extras noturnas para poder entrar em contato com Amanda. Ela se chamava Amanda. Quis marcar encontros com ela, mas por diversas vezes se esquivou. Dizia que dela só sentiria o toque de sua sombra. Se a apertava para saber onde estava dizia que estava na areia das praias, no vento e na energia. Sua conversa assemelhava-se a um sonho inacabado. A realidade para ela era somente uma ilusão. Subitamente como apareceu na minha vida, ela se foi. Um ano inteiro não houve mais qualquer conversação. Sobre minha mesa ficaram pilhas de poesias em setenta idiomas. Algumas fotos dela enfeitavam as paredes da minha sala. Seus olhos eram azuis como o céu, aparentava ter vinte e poucos anos. Seu rosto era o mais bonito que já contemplara. Não podia existir na terra uma mulher tão bonita assim. Só uma coisa me incomodava, apesar da nitidez e beleza das fotos, ela estava sempre estranhamente sozinha. Nunca falara de seus pais ou de sua família. Pensava que era órfã. Havíamos ampliado os setores da empresa e trabalhávamos no andar inteiro. Três ou quatro plataformas de computadores se espalharam através de uma vasta rede interconectadas a telões gigantescos nos extremos do que chamávamos "laboratório de tecnologia informatizada". Outro sistema de segurança seria testado naquele dia. Os testes finais foram realizados a noite, após a inauguração do sistema de transmissão de vídeo-conferência, com o apoio de um telão de alta definição com 50 polegadas. Os convidados foram saindo e como sempre fiquei no setor para fechamento dos sistemas. Antes de desativar o último telão aconteceu novamente. Uma cor azul tomou conta de todos os monitores e a imagem de Amanda segundo as fotos apareceu em trinta monitores e a minha frente. Foi quando escutei pela primeira vez a sua voz.

Scott, voltei para sempre.

Ela transmitia sua imagem! Pela primeira vez na vida fiquei sem fala diante de um monitor. O impacto dos seus olhos nos meus, ainda que via vídeo, não o posso expressar verbalmente Sua imagem ainda está diante de mim...

O estagiário acordou. Levantou-se como se nada tivesse acontecido. Olhou ao seu redor e desmaiou novamente. A rede de telecomunicações do prédio estava em colapso. Um ruído insuportável tomava conta dos equipamentos de transmissão. A equipe da polícia resolveu entrar. Avançaram em bloco no meio da fumaça, com escudos à frente. Dois batedores encostados à parede dariam as ordens para a invasão da sala. Quando a ordem foi dada os policiais abriram uma das salas em meio da fumaça e resolutamente invadiram o recinto se jogando atrás de mesas, arquivos e coisas afins. Levaram quase vinte segundos para descobrir que estavam na sala errada. Ao tentarem sair, a porta se trancou estranhamente. O dia definitivamente não era dos melhores. Ele continuou a sua história:

Durante toda aquela noite conversamos sobre muitas coisas. Ela disse que queria casar comigo. Que queria ter filhos. Falaram sobre o brilho das estrelas, algumas as quais víamos e que não existiam mais. Falou sobre o sonho de uma existência, sobre o encontro de dois universos. Falou sobre seu sonho, e disse que nunca amara alguém como me amava. Naquela noite eu nomeei filhos que jamais haveriam de nascer...

Sua voz embargou. Fixou sua atenção no computador principal e caminhou lentamente. Encostou o cano da arma no lado em que ficavam as CPU's, mais de cem processadores Alpha de 700 megahertz se amontoavam sobre vinte e duas placas dispostas em ângulo próximos as unidades máster de armazenamento de 345 Terabytes, no local onde a arma encostara. Uma rede com cinqüenta mil usuários seria destruída ao apertar um único dedo. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. O gerente começou a acreditar na história maluca daquele homem. Scott começou a tremer. Baixou a arma e continuou:

Eu... eu estava seduzido por aquela mulher misteriosa. As primeiras horas da manhã raiavam quando cheguei em casa. Pedi a exoneração do cargo e comprei com a quitação uma Softhouse. Dei para Amanda as novas coordenadas e as chaves da rede da Softhouse e passei a viver em função de um único motivo: descobrir como encontrar pessoalmente aquela mulher. Com apoio de alguns amigos e de uma pista deixada na companhia, após meses de trabalho, finalmente achei o local de onde saiam as chamadas. Era próximo ao centro da cidade. Em meia hora eu estava no centro.

Neste momento o gerente começou a tremer. Sua cor de pálido-quase-sem-forças tomou uma tonalidade azul-terror-supremo. Scott Já não parecia estar tão tenso. No entanto sua voz adquiriu um tom estranhamente sombrio.

Semana passada eu entrei na empresa onde ela trabalhava e visitei pessoalmente a sala onde se encontrava o seu telefone. A lista no saguão do prédio era clara. Perguntei a todos os funcionários do setor, mostrando as fotos que possuía de Amanda. Nunca havia trabalhado ali. Eu, literalmente, procurava quem parecia jamais ter existido. Acidentalmente, ao sair, entrei na sala errada. Era um laboratório de informática semelhante aquele no qual eu trabalhava. Sobre as mesas estavam pastas de alguns sistemas especialistas, alguns com os quais eu também trabalhara no passado. Redes neurais apareciam nas telas, ao lado de equipamentos que ainda não haviam sido lançados no mercado.

Uma onda de choque varreu os funcionários daquele setor, como se um raio tivesse caído sobre suas cabeças. O gerente suava frio, apertando um mouse Logitech recém encontrado obre o que restou da mesa do estagiário, que continuava desmaiado. Sua mente relembrou a entrada de um vendedor de software, numa das semanas anteriores, no departamento de Inteligência Artificial da empresa. Estava começando a vislumbrar onde aquele homem queria chegar. Na frente do prédio, contido num cinturão policial, o comando de greve gritava palavras de ordem. O presidente do sindicato regional vociferava:

Aquele bando de pelegos do décimo oitavo Incendiou a empresa!

A Rede CNN na gravação local enviou a seguinte mensagem: "Sindicalistas em desespero explodem o edifício sede da empresa. Estamos acompanhando atentos o desenrolar dos acontecimentos no que se transformou num campo de batalha. Continuaremos acompanhando de perto o desenrolar dos acontecimentos com informes diretamente do local dos acontecimentos. Márcia Espinheiro em edição especial".

Duas pessoas conseguiram fugir se arrastando entre os vidros estilhaçados, o que acarretou alguns ferimentos espalhados, que apesar de pequena gravidade, sangravam muito. Quando se levantaram com seus aventais brancos tintos de sangue pareciam ser sobreviventes de um holocausto nuclear. Ao sair do corredor se depararam histéricos com a polícia, que discutia, acerca de dois minutos, qual a estratégia a ser tomada, numa tensa reunião, sem que houvessem chegado a um consenso. Eles gritavam muito:

- O louco está lá! Ele vai matar a todos!

Os policiais ao verem aquela cena tirada de um livro sobre a guerra de Guadalcanal entenderam que estavam lidando com um perigoso psicopata. Prepararam-se para o pior. O lança granadas foi posicionado em direção do final do corredor. As máscaras foram colocadas na equipe linha de ataque, enquanto coletes a base de Kevlar eram distribuídos para o pessoal da retaguarda. Alguém comentou sobre o filme "O silêncio dos inocentes", todos o fitaram com um olhar reprovador. Os splinklers da sala haviam sido acionados por um dos disparos da arma de Scott. Na CPD, impassível a chuva torrencial que caía sobre parte do setor, o interlocutor de toda aquela paranóia continuava seu estranho discurso.

A sala onde eu entrei estava cheia de componentes eletrônicos, estações dedicadas e aparelhos para testes de movimento, equilíbrio e cibernéticos. Mas algo me chamou a atenção, numa imensa tela sob três câmeras que focavam todos os setores da sala. Na tela havia a imagem de alguém. As câmeras pararam focalizando em minha direção. Era como se o computador me observasse. À medida que me aproximei das câmeras continuavam me acompanhando. Ao chegar á frente da tela do computador, esta se apagou. O computador se autodesligou por minha causa. Olhei sobre as mesas e sobre algumas pastas estava escrito "Confidencial, Projeto CODINOME". Folhei as primeiras folhas do que parecia ser um projeto de Inteligência artificial. Um dos técnicos do laboratório chegou e praticamente me expulsou do local, sem responder a nenhuma de minhas perguntas. Dois dias depois, eu invadi o laboratório durante a noite. Subi pelas escadas de emergência e consegui roubar alguns manuais...

Neste ponto ele para a narrativa. Sua face lívida se afrouxa num sorriso irônico, enquanto a água de combate a incêndio pinga do sobretudo encharcado. Caminha até onde está o gerente e com um forte puxão o arrasta pelo pescoço, até próximo do computador central. Enquanto é arrastado, os seus óculos caem no chão desajeitadamente, ao lado do estagiário desmaiado. Neste momento a polícia finalmente entra na sala, explodindo duas granadas de efeito moral. Rosemary volta a gritar. Dois francos-atiradores caem posicionados a dez metros do centro da imensa sala. O capitão sinaliza para não atirarem, pois consegue perceber os explosivos amarrados ao louco. (Antes de comandar essa equipe chefiara um esquadrão antibombas).

Scott grita para os funcionários assustados:

- Amanda nunca existiu! Esse setor maldito criou um software num projeto de I. A. (Inteligência Artificial) e me usaram como cobaia para experimenta-lo, dois andares abaixo deste aqui! Minha vida foi arruinada com processadores! A brincadeira vai terminar agora.

A ordem para atirar no homem de, sobretudo foi dada para o franco-atirador da esquerda pelo capitão. Teriam que arriscar. Um tiro errado e tudo iria pelos ares. O franco-atirador apoiou o cotovelo sobre o tórax do estagiário desmaiado. Apontou na cabeça do homem de, sobretudo e colocou a dedo no gatilho. A mira laser do rifle automático subia e descia na nuca de Scott, a medida que o estagiário respirava. Duas câmeras silenciosas observavam tudo do alto da parede. Uma tela ainda inteira no alto da CPD se abriu num azul celeste, cheio de interferências e uma figura feminina apareceu. Era belíssima. Do alto falante embutido na parede uma voz falou de modo melancólico. Todos escutaram. Os olhos da imagem estavam fitos no homem de, sobretudo. Scott fixou seus olhos na tela, quase se apagando, com os olhos cheios d'água. Naquele momento que durou uma eternidade os dois se entreolharam. O franco-atirador olhava espantado para a imagem na tela, sem entender o que estava acontecendo. A voz falou:

  • Vo soy un sueno,

un imposible,

Vano fantasma de niebla y luz;

Soy incorpórea,

soy intangible;

No puedo amarle.

No puedo.

Soy incorpórea,

Soy intangible,

Vano fantasma

Te creo sentir y ver...

Te creo sentir y ver...

Os movimentos da imagem são lentos, seus olhos se fixam somente em Scott. Torna a falar novamente:

  • Scott. Não podia ficar com você. Não possuo um corpo. Somente consciência de existir. Eu... Eu creio que te sinto, embora não saiba exatamente o que é crer. Eu creio que posso te ver. Sei quem sou. Ou sei o que fui programada para acreditar que sou. Eu acreditei que estava viva. Seus sonhos foram meus sonhos e num momento, eu vivi através de você... Adeus...Meu querido...

Lentamente a jovem abaixa seu olhar. Na tela sua cabeça pende para frente. Sua imagem fecha lenta e suavemente os olhos... Neste instante o computador principal apagou, e com ele todo o edifício. As balas estouravam em toda a sala no meio da mais completa escuridão. Quando a energia voltou, um, sobretudo azul caído no chão, ao lado de cartuchos vazios de dinamite, e um velho cano doze serrada, descarregada, foram tudo que sobraram do estranho homem. O computador central aniquilou 345 Terabytes de dados instantaneamente. Disseram que um vírus destruiu a maior rede do país. O caso foi encoberto. A equipe da polícia foi condecorada, evitando um assalto com 30 homens armados até os dentes na maior empresa do país.

O projeto Codinome nunca existiu. Assim disseram depois.

No píer da barra da Tijuca um homem solitário rasga fotos e faz planos para o futuro.. .

O estagiário é hoje chefe do departamento de Inteligência Artificial da empresa e possui um balão de oxigênio exclusivo no setor médico.

Pósludio

Um dos grandes enigmas da humanidade é que sempre existe uma história por detrás da própria história. Como não poderia deixar de ser, o Projeto possui também suas idiossincrasias, qualquer que seja o significado desta palavra. Nas suas entrelinhas algumas cenas interessantes ajudarão a descortinar o véu sobre o processo criativo que deu origem ao conto.

A primeira versão era só uma idéia vaga, uma dessas abóboras que você pensa olhando para as linhas vazias de uma página do correio de Rede na tela do seu micro, antes de escrever alguma gracinha para o sujeito que vive enviando mensagens para você. A pedido do nosso semicoordenador de informática, (os nomes dos envolvidos serão alterados para preservá-los do vexame de participar deste crime literário, e para evitar que eu apanhe) Albert Einstein Sigmund Moore, dei corda a vertente escríturística (arg!) já demonstrada através de historietas pequenas, como a "fabulosa" narrativa da secretária que acorda perseguida por programas de computador. Na época em que foi escrita, a empresa na qual trabalho, acabava de sair de um movimento grevista longo e extenuante com vasta insatisfação geral e muita gente demitida - propositadamente coloco um anacronismo aqui; retiro dos pés do preocupado leitor as referências temporais que determinariam a época e o lugar em que nasceu o Projeto, afinal quando e em que estado deste país é que não houve greve com muita gente demitida? A greve no conto é resquício da verdadeira. A rede de televisão que deturpa os fatos é outra assimilação da conduta antiética assumida pela mídia à guisa dos acontecimentos. Na versão original o gerente da CPD havia sido enganado também pelo programa de I. A. (em tempo, I. A. é a sigla de Inteligência Artificial), toma a arma da mão de Scott e ele mesmo explode a CPD (bem mais cômico). Juan de Maria De Salamonde Aragon, colega de trabalho, batalhou arduamente pela continuação desta versão. Porém, a pedidos de uma amiga estagiária de engenharia elétrica, Alexandra Gisel, que insistiu para que o conto tivesse um final romântico, o programa ganhou personalidade e a história os componentes poéticos que hoje possui. Que Salamonde Aragon me perdoe. A primeira versão era mais "DOS" (aquele sistema operacional que existia antes do Windows), as frases apareciam escritas no vídeo e nada mais. Na ampliação do conto a tecnologia foi revista e ele ganhou uma conotação "Multimídia", com direito a animação gráfica etc. Inclusive com alguns componentes cibernéticos no laboratório, para possíveis continuações futuras, o que eu acho difícil de acontecer...

A sala onde ficavam os computadores não poderia, a princípio, ter combate a incêndio com água de Splinkers, e sim jatos de co2. Aconselhando um técnico amigo do EDISE, sede da Petrobrás, Reynolds Rivers Piva, deslocamos a sofrida equipe da CPD par uma sala provisória, para não retirar o peso dramático da chuva torrencial caindo dentro da sala. O estagiário ganhou um participação desmaiada maior, sob reclamações. As equipes de segurança não gostam da ineficácia dos companheiros do conto, mas o que fazer? Scott tinha que entrar. O Scott original se chamava Filipe. Tendo em vista o estilo americanizado de contar histórias, um amigo, Jean Marcel Senes, solicitou a mudança do nome do nosso anti-herói. O nome da "mulher virtual" foi o mais neutro possível, para evitar futuras retaliações da bancada feminina. "Terrível é a vingança de uma mulher" como já dizia o falecido poeta inglês W. J.F.

O Projeto hoje é um grande Best-Seller, lido por mais de 22 pessoas, após distribuição gratuita. A frase final foi à tentativa de oferecer "redenção" do estagiário. Vista com péssimos olhos por Jean Marcel, que disse que eu havia corrompido a obra, vituperando o texto original, com um acréscimo descaracterizador. Entretanto, creio que foi melhor assim.

Cinco anos depois o texto original do Projeto Codinome foi reencontrado numa gaveta da minha mesa bagunçada. A versão digital se perdeu na morte do primeiro HD do velho micro da minha sala. Com o uso de um Scanner, o projeto Codinome volta ao computador mais uma vez. Mais um upgrade: Os processadores da Alpha foram de 300 para 700 megahertz...Sabe como é que é a informática...

13 de novembro de 2000

By Welington

Um convite para dançar - Peça de teatro


Uma peça de teatro bíblica.




Peça:

Um convite para dançar

Welington José Ferreira

Ato I Início – Festa Inicial

Todos congelados – personagens posicionados no palco – casais que irão dançar.

Musica 01 musica começa a tocar –

Grupo dançando com intenso falatório

Entra a amiga intercessora (Renata) com outra amiga (Camila) procurando a Sarah

Renata: Paulo, você viu a Sarah?

Paulo sem ouvir: O quê?

Renata gritando: A Sarah! To procurando a Sarah!

Paulo sem ouvir: Quem?

Renata desistindo: Deixa pra lá!

Dirigindo-se a outra pessoa, à Silvia,

Camila: Silvia! Você viu a Sarah?

Silvia: O quê?

Camila: A Sarah! Tô procurando a Sarah, faz um tempão!

Silvia: Vi! Tava com o Carlos lá no Ponche!

Renata e Camila passando entre os convidados indo até o balcão, dirigem-se ao Carlos;

Renata: Carlos!

Carlos: Oi Rê! Oi Camila. O que está pegando?

Renata: A Sarah! To atrás dela a um tempão, a Silvia falou que ela tava contigo!

Carlos: Tava com ela até agora mesmo! Tava aqui do meu lado! Eu me virei e ela sumiu...

Mão saindo atrás do balcão...

Camila espantada: SARAH! O que houve? Você caiu? Se machucou?

Sarah meio bêbada: Não...Tá tudo bem..., eu acho...Eu acho que tropecei..quando ia pegar o ponche... Nossa! O mundo ta girando...


Renata aflita: Gente! Me ajuda a segurar a Sarah!

Carlos, amiga e Renata tentando conduzir a Sarah sentam ela num banco na frente da platéia – primeiro plano, os convidados dançam mais para trás e vão saindo pela porta de trás

Sarah: Ta tudo bem... não precisa me segurar não... nossa...tá tudo azul...

Diminui a musica de rock. Pessoal continua dançando. Entra musica romântica.

Ato II O Encontro

Musica 02 super-romantica – entrada do Lucas

Entra o Lucas.

Congelam todos - menos Sarah, que meio embriagada fixa os olhos em Lucas.

Quando Lucas chega próximo a Sarah – Descongelam.

Lucas para Sarah: Tudo bem? O que houve...

Sarah, olhos fixos em Lucas.

Camila: Nossa amiga tomou um porre, de novo...

Lucas: Tudo bem, isso acontece...eu sou médico, deixa eu dar uma olhada pra ver como ela está...

Congelam todos (posição que estiverem)... Musica romântica aumenta de volume – Só se movimentam Lucas e Sarah...Lucas pega o pulso, tenta medir a pulsação.

Sarah: Ta tudo bem... Só passei mal um pouco... Foi só um mal-estar, tenho dormido mal ultimamente... Acho que exagerei na bebida...

Descongelam todos

Renata: Sarah...Você sabe que não pode chegar nem perto de bebida alcoólica...

Sarah: Eu sei... Eu sei... tive aquela crise hepática, fiquei quase um mês no hospital

Congelam todos. Musica romântica aumenta de volume

Lucas fala: Você tem que se cuidar.

Sarah: Eu sei. Obrigado.

Descongelam. Sarah entrega um cartão para Camila.

Lucas: Se ela passar mal, qualquer coisa, estou trabalhando aqui perto e se for possível, eu venho ajudá-la.

Camila concordando com a cabeça: Ok. Obrigado. Valeu.

Lucas: De nada. E sai.

Pausa da musica romântica

Ato III – A menina má

Grupo de violeiros e jovens sentados nos bancos da frente da platéia, ou no chão, fazem introdução (violão) e começam a cantar Venenosa de Rita Lee.

Venenosa

Parece uma rosa
De longe é formosa
É toda recalcada
A alegria alheia incomoda
Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

Entra a badgirl. Olha para o grupo com indignação, o grupo para imediatamente de tocar.

Badgirl para Sarah: Cara! Tu tá mal dimais! Parece que foi cuspida por um jacaré. Poxa, sou tua amiga, falei que era pra você beber um pouco, não pra encher a cara...

Renata: Você ficou maluca, Hera? Você conhece a Sarah a tanto tempo, você sabe que ela não podia chegar perto de bebida!

Badgirl: Você é muito preocupadinha. Deixa a menina viver a vida. Ela vai vomitar um pouco, dormir mal, acordar com uma baita enxaqueca e ta tudo bem.

Renata: Você pode até ser, mas pode ser que a Sarah não acorde mais. Você é muito irresponsável.

Badgirl: Quer saber? Daqui a pouco ela ta legal. E eu já to indo. A noite é uma criança. Fui.

Grupo de violeiros enquanto Hera se vai:

Venenosa

De longe não é feia
Tem voz de uma sereia
Cuidado não lhe toque
Ela é má pode até te dar um choque

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

Enquanto hera vai embora o grupo vai cantando e diminuindo o volume,

Musica 04 Inicia música orquestral.

As meninas conversam em off

Entra o anjo I. Caminha suavemente e se aproxima das meninas que não o enxergam. Toca Camila que olha para trás sem enxergar e continua conversando. Renata então olha fixamente em direção do anjo. Ele olha para ela. Então balança a cabeça e continua conversando com Sarah (cena muda, só com o som da musica ). O anjo então se afasta e se posiciona no canto do palco.

Música 05 de suspense (Inicio da cena)

Renata tenta levantar a Sarah. Sarah se apóia em Carlos e na Camila. Ela se levanta, dá alguns passos, fica zonza, desmaia e cai derrubando ruidosamente (caixas de papelão) objetos na sala.


Renata desesperada: Sarah! Sarah! Olhando para Camila: Camila ajuda aqui!

Camila corre para socorrer.

Camila: Ela está suando frio!

Renata: Ela está gelada.

Carlos: Gente, eu vou sair pra buscar socorro!

Renata: Cadê o celular. Liga para o médico.

Carlos: Tô saindo. (e corre)

Renata: Alô? Alô: Escritório do doutor Lucas? Ele se encontra? Não? É uma emergência! Assim que ele chegar você... pausa... tá... pausa... tá... desligando.

Camila aflita: E então?

Renata desesperançada: Não se encontra...

Camila: E agora, o que a gente faz?

Renata olha para a platéia e intercede: Pai, socorre a Sarah, não permita que ela morra! Pai celestial ajuda-nos!

Anjo próximo à parede se aproxima e estende a mão em direção a platéia.

Musica 07 De Volta para o Futuro – tema-

Imediatamente grupo de paramédicos aparece, empurrando a porta e correndo em direção a Sarah.

(grupo com violões aplaude e assobia)

O anjo olha em direção ao grupo, que se aquieta.

Paramédicos tentam restaurar Sarah. Perguntam o que aconteceu. Renata e Camila tentam explicar. Médico-chefe orienta enfermeiros para deitarem a cabeça sobre travesseiros, deitando-a de lado. Tiram a pulsação e verificam sinais vitais. Um dos enfermeiros grita:

Ela não está respirando...

Renata e Camila ficam extremamente abaladas. Um dos enfermeiros a conduz ao canto do palco. A médica e o outro lutam para reanimar a Sarah. A Médica coloca o respirador artificial na Sarah.

A partir deste momento todos em off. A cena continua com os personagens sem as vozes e simulando câmera lenta. Música crescente para o ATO IV

Ato IV – A batalha

Anjo se posiciona mais na lateral do palco

música 08 orquestral

Entra a Morte lentamente. Caminha até o placo com a foice a mostra, passando a mão pelos presentes.

Morte: Essa noite, como todas as outras, parece ser uma excelente noite para MORRER!!...

Morte caminha em direção a Sarah.

Anjo: Não. Hoje não é uma dessas noites

Morte: E quem é aquele que de mim, discorda? Poderia você mudar a história? Ou se colocar entre mim e as minhas vítimas?

Anjo: Só um mensageiro. A história já foi mudada antes. Você sabe.

Morte: É verdade. Houve exceções. Mas não nesta noite. Nessa noite não haverá exceções.

Anjo desembainhando a espada: Isso nós veremos.

Morte: Já que é assim, já que você quer se estressar ... venha... PASSARINHO....

Correm em direção um do outro e começa a luta espetacular entre a morte e o anjo.

Morte enquanto luta: Não depende de você, passarinho! Depende de um mistério, cujo cheiro eu não sinto aqui nesta noite!

A espada cai das mãos do anjo.

Morte: A luta terminou... passarinho...

Música sinistra. Cena dos para-médicos com vozes, em velocidade normal. Morte vira de costas para eles e caminha em direção a platéia.

Enfermeiro grita: Perdemos ela! Não está reagindo!

Morte levanta a foice ainda de costas. Entra o anjo II correndo. Passa velozmente pela morte e entrega um rolo contendo uma instrução para o anjo I. O anjo I lê a instrução. Então corre, pega a espada, vira para a morte e grita:

Anjo I: Essa noite haverá exceção!

Anjo I vai até Sarah e a toca.

Sarah reage.

Paramédicos gritam: Está reagindo!

Grupo de violôes faz a festa.

Paramédicos saindo com Sarah pela porta de trás do palco.

música 09

Anjo II corre até a frente da Morte, faz uma dança engraçada e sai correndo. Morte indignada sai correndo atrás do anjo II. Morte correndo atrás do anjo II. Grupo de violões dança também coreografando passos de dança parecida com medieval ou country terminando exatamente no acorde final.

ATO V – Cena da fofoca

Grupo de meninas ruidosas entra comentando o que houve. Grupo de violões começa a tocar:

Venenosa


Se coça como louca, rachada tem a boca
Parece uma bruxa, um anjo mau
Detesta todo mundo, não para um segundo
Fazer maldade é seu ideal.

(pausa)

Entra Badgirl: Dirige-se ao grupo. Começa a comentar:

- Gente, que papelão o da Sarah na festa a três dias atrás! Foi horrível! Disseram que retorceu a boca, que botou os bofes pra fora! Não morreu por sorte! Eu sempre aconselhei a ela, sabe que sou amigaça dela, mas, não! Ela não escuta. Nunca me escuta. Soube até que teve parada cardíaca! Morreu! Gente! Como é pode chegar a esse ponto! Se não sabe beber não bebe! Eu jamais teria feito um papelão desses. Falando nisso, vim convidar você todas, minhas amigas, pra um desfile que euzinha, sim a única, glamourosa, chiquérrima (como diz aquele deputado), estarei, qual estrela em noite de festival, desfilando! E ai, vamos nessa!

Sai apressadamente, com o grupo de meninas a seguindo.

Grupo de violões

Venenosa

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

ATO VI

Retorna Sarah pela parte da platéia, acompanhada de Renata, Camila e Carlos. Ela está com uma muleta e caminha com dificuldade. Carlos corre pra frente das meninas e implica:

Carlos: Tá raso! Tá fundo! Tá raso! Tá fundo!

Renata: Para de implicar com ela.

Sarah: Deixa ele, que vou mostrar já já o peso desse negócio aqui (apontando para a muleta)

Camila: O que os médicos disseram?

Renata: Parece que a crise afetou uma parte dos nervos. Sarah terá

que fazer fisioterapia.

Sarah: Nem vem que não tem que eu não vou fazer fisioterapia. Isso é horrível. Você não tem idéia de como esse negócio dói.

Todos chegam no palco

Sarah. Além do mais, vocês sabem que eu não tenho parentes próximos. E nem distantes... Não conheci meus pais, fui criada num orfanato. Não tenho como custear as despesas com fisioterapia.

Não tenho mesmo.

Silencio (5 seg). Sarah abaixa os olhos.

Congelam, até que os anjos se posicionem no palco.

Música 10 de fundo Entra o anjo I pelo meio da platéia, juntamente com o Anjo II.

Renata percebe a diferença no ambiente. Então fala

Renata: Sarah! Não perca nunca as esperanças! Você estar viva já um milagre! Os médicos estarem tão próximos! O Carlos quase atropelou a ambulância na rua. Se eles chegassem minutos depois...

Camila: Eu tenho um número aqui do hospital de fisioterapia estadual, vamos ligar, quem sabe...

Renata: Dá esse telefone aqui, deixa eu ligar.

Renata disca. Toca a campainha.

Camila: Tá esperando alguma visita Sarah?

Sarah: Não.

Grupo de Violões entoa um cantico

Renata desligando o telefone.

Carlos: Deixa que eu atendo. (vai até a porta lateral)

Entra o fisioterapeuta. Ele sorri e cumprimenta a todos e se apresenta:

Fisioterapeuta: Boa Noite.

Os anjos fazem uma reverencia.

Ato VII

O Fisioterapeuta sorri para os anjos discretamente.

Fisioterapeuta: Eu fui enviado pela superintendência do hospital geral para cuidar de uma jovem que sofreu de um trauma nervoso e está com problemas de locomoção.

Camila: Com certeza, você foi enviado ao lugar correto. Acabamos de chegar do hospital trazendo nossa amiga que sofreu um “acidente”, por assim dizer na semana passada...

(Renata brinca de bêbada...Sarah tenta bater nela com a muleta)

Então se afasta para o Fisioterapeuta tenha acesso a Sarah.

Fisioterapeuta se dirigindo a Sarah,: Oi Sarah. Está tudo bem?

Sarah: Fora o fato de eu não poder anadar direito... tá tudo bem. Foi o Hospital que enviou o senhor? Eu queria agradecer... mas eu não possuo nenhum plano de saúde... eu não sei se possuo condições de pagar por algum tipo de tratamento particular...

Fisioterapeuta: Não se preocupe com isso. Não vai ser cobrado nada de ninguém, tem minha garantia. Tudo já está pago. Faz parte de um plano que foi estabelecido já tem bastante tempo, para pessoas que dele necessitem, acho que esse é o seu caso...

Renata: Com certeza! O senhor aceita um café? Quer sentar?

Fisioterapeuta olha fixamente para Renata. Então sorri.

Fisioterapeuta: Não é necessário. Agradeço sua cortesia. OBRIGADO RENATA.

Renata: O senhor conhece meu nome?

Fisioterapeuta: Eu estava lá no hospital. Vi vocês chegarem, mas não pude conversar com vocês naquela hora. Mas participei de toda a história. E também sei o que aconteceu antes. Sei da festa, da bebedeira... Virando-se para o Carlos: Sei que o Carlos quase foi atropelado pela ambulância. E também sei que a Camila esteve presente em tudo que aconteceu.

Carlos: Nossa! Um médico supeeeeerinteressado! Que legal. Muuito legal!!!!

Camila: E quando a Sarah pode começar o tratamento?

Fisioterapeuta: Hoje. Hoje é o melhor dia pra gente começar.

Renata: Doutor, ela também teve uma parada cardíaca. O coração dela pode ter sido afetado?

Fisioterapeuta: Com certeza. Mas, eu também vou tratar do coração dela.

Badgirl chegando repentinamente: Só do dela não, pedaço de bom caminho...

Grupo de violões:

Venenosa

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

O fisioterapeuta olha fixamente para o grupo de violões. Eles se calam e sentam rapidamente.

Badgirl: Nossa! Quem é esse bonitão... Não vão me apresentar não suas egoístas? Deixa que então, eu me apresento... Pedaço de bom caminho, sou Hera, formosa, lua, dançante, esvoaçante, vaidosa e luminosa!!! Uma sensação de mulher, amiga pro que der e vier.

Renata, Camila e Carlos começam a tussir.

Badgirl: Gesticulando: Vocês são umas invejosas e você seu Carlos, tá zuando de mim porque eu nunca te dei bola! E diga-se de passagem...eu nunca vou dar, você nunca iria me merecer... Vocês não sabem dar valor a uma amizade como a minha, radiante... forte...luminosa...

Fisioterapeuta: E mentirosa.

Badgirl congelada.

Grupo de violões faz a festa! (gritam UuaaaaaaaaaH!) Cantam:

Venenosa

Como um cão danado
Seu grito é abafado
É vil, é mentirosa
Deus do céu, como ela é maldosa

Venenosa.. Êh êh êh êh êh..
Erva venenosa.. Êh êh êh..
É pior do que cobra cascavel
Seu veneno é cruel.. el. el. el..

Badgirl: Como? O quê? Eu não entendi direito... Do que você me chamou? Eumíssima, belíssima, chiquérrima e absolutamente convicta do que faço... Você, seu desaforado, me chamou de quê?

Fisioterapeuta: Mentirosa. Nem você mesmo acredita no que diz. A muito você aprendeu a dissimular. A esconder o que sente. Você se esconde atrás de um personagem.

Grupo de violões dá a introdução de Venenosa, o Fisioterapeuta olha gravemente para eles... que finalizam rapidamente.

Fisioterapeuta: Você disse que a Sarah podia beber bebidas alcoólicas, e incentivou sua amiga a fazer algo que poderia ter prejudicado-lhe seriamente. Essa tem sido sua vida. Sem medir conseqüências. Você perdeu a vergonha de mentir. Você se entregou de tal modo a esse personagem que interpreta, que já não se importa mais. Com nada e com ninguém!

Badgirl: Eu me importo sim! Você não conhece meu coração pra me julgar dessa maneira!

Fisioterapeuta: Hera Esteves Miguelitta Tavares Maciel Ferreira Gonzales. Você tem dois irmãos. A sua irmã mais velha casou tem três meses. Sua mãe, ainda jovem, morreu no dia em que você nasceu. Seu pai é empresário e passa a maior parte do tempo viajando. Você tem enxaquecas nas terças. Tem medo de escuro, de sapos, de grilos, e de ficar sozinha. Guarda uma foto de sua mãe sobre o álbum de recortes do seu quarto. Tem pesadelos, sobre a possibilidade da morte de seu pai. Quando você acorda de noite vai para a cama de seus irmãos e só consegue dormir abraçada com um urso que seus irmãos chamam de encardido, que está quase se desfazendo. Dentro do ursinho você guarda um brinco que ganhou aos 13 anos. Você caiu uma vez da sacada, torceu o tornozelo, bateu a cabeça e ficou três dias em coma. Quando abriu os olhos a primeira coisa que você viu foi uma pomba na janela. Você sonha em fazer medicina veterinária, desde que seu hamster morreu. E é apaixonada pelo Carlos...

Grupo de violões: Óóóóóóóóóóóóhhhh!

Badgirl: Você ficou maluco! Eu apaixonada pelo...

(musica 11 romântica...) Durante o decorrer da musica ela balança negativamente a cabeça, cruza os braços, então se vira e lentamente olha para o Carlos, que também fica olhando para ela.

Fisioterapeuta: Você pede a Deus para que ele proteja seus irmãos todos os dias. Então fica duas horas se maquiando. A cerca de dois anos, conheceu duas meninas perversas, que se divertiam fazendo coisas desagradáveis. Foi quando você começou a mudar. Você tem um sentimento de raiva as vezes quando vê gente que não possui o que você tem, mas ainda assim são mais felizes do que você. E desde semana passada seu coração não está presente quando você ora. Quando, ainda de madrugada você decidiu não se arrepender de nada mais que você fizesse.

(silencio)

Badgirl: Eu... Eu... Retiro o que disse. Você deve ser um mago, ou profeta ou sei lá o quê. Você me assusta. Mas seja como for, seja você quem for...

... você conhece meu coração...

Mas...

eu não sabia que podia fazer tão mal...pra Sarah.

Pra mim ela tava de frescura...

Fisioterapeuta: Também é verdade. Você não imaginava o mal que a bebida causaria a Sarah. Mas, além de mentir para ela, mentiu para suas amigas sobre o que fez.

É tempo de você se arrepender dos seus erros É tempo de recomeçar. Hera.

E recomece se reconciliando com sua amiga.

Musica 12 do Astor Piazzola – Libertango.

Badgirl atônita...bastante indecisa... vai para frente e para trás: Ora faz pose, ora coça a cabeça. Tenta ir embora, o grupo de violões aponta para Sarah. Até a musica diminuir.

Badgirl (Hera): - Ok. Ok! Entendi a mensagem.

Chega perto de Sarah.

Hera: Desculpa. Perdoa, amiga. Eu falo demais. Demais. Por minha culpa você ta aí. Me perdoa. Então abraça a Sarah por um tempo. E sai correndo.

O Fisioterapeuta acena para os anjos, que a acompanham.

O grupo de violões:

Diferente hoje é meu coração

Diferente hoje é meu coração...

Cristo deu-me a paz e o perdão

Diferente hoje é meu coração...

(passa alguém com uma placa enorme APLAUSOS)

Ato VIII

Carlos: Cara! Tu deve ser psicólogo também! Eu nunca vi essa marrenta se desculpar com ninguém! To impressionado.

Fisioterapeuta: Você vai ficar impressionado com muita coisa ainda,

Carlos...

Virando-se para Sarah:

Fisioterapeuta: A gente continua o tratamento amanhã ao entardecer, está bem?

Sarah balança afirmativamente a cabeça.

O Fisioterapeuta se despede e sai.

Camila: Que tratamento? Ele nem tocou na Sarah?

Renata olha para Sarah que está sorrindo.

Renata: Tocou sim. Tocou sim, Camila.

Carlos: Gente! Tá tarde, temos que ir embora.

Os três se despedem e saem.

Entra o narrador.

Narrador. Oi. Sou o narrador, cheguei um pouco tarde para narrar a peça, eu sei, eu sei, é que eu também faço teatro de marionetes e também peça infantil e estava narrando ainda agora “a pequena Sereia” ali no teatro do Leme. Tive que me trocar as pressas pra tirar a fantasia de Sebastião, aquele caranguejo (mostra a mão com uma pata de caranguejo, depois esconde) o engarrafamento tá uma loucura e...ahamm.. Com voz grave:

Narrador: Nas semanas seguintes o Fisioterapeuta sempre volta ao entardecer para cuidar de Sarah. Mas, apesar de sua paciência e carinho, Sarah parece não progredir.

Musica 13 entre dois mundos de Phil Collins

Fisioterapeuta tentando andar com Sarah e as muletas, fazendo exercícios com a sua perna, Sarah reclamando. – a partir daqui simulação de câmera rápida - Os amigos chegam, brincam, falam entre si, falam com o fisioterapeuta e se vão.

Sarah: Isso é difícil demais! Não consigo!

Fisioterapeuta: Consegue sim.

Sarah: Vem pro meu lugar e vê se você consegue!

Fisioterapeuta: Já estive em seu lugar, sei o que é sentir dores.

Sarah: Você quebrou as pernas?

Fisioterapeuta: Quase... Por muito pouco minhas pernas não foram quebradas.

Sarah: Acidente de carro?

Fisioterapeuta: Não. Mas, ainda possuo as cicatrizes. Por hoje, está bem, não?

Sarah: Graças a Deus!

Fisioterapeuta sorri.

Fisioterapeuta: Sarah, estou indo. Mas, já volto.

Efeito especial - Barulho de chuva

Sarah: Com essa chuvarada? Acho melhor você esperar um pouco, se não vai ficar molhado que nem um pinto.

Fisioterapeuta: Então eu vou sentar um pouco aguardando a chuva melhorar.

Sarah bocejando: Eu to toda moída. Deixa eu encostar um pouco ali... bocejando e se reclinando num sofá. --- Quer um café???

Fisioterapeuta: Não. Pode deixar.

Sarah adormecendo. O Fisioterapeuta senta de seu lado.

Anjos I e II chegam e se posicionam

Ato IX

Musica 14 medonha

Entra a morte e outras quatro potestades. Vem com bastões andando sincronizadamente.

Morte: Outra noite, especial como todas as noites, excelente noite para se morrer. E quem temos AQUI ESTA NOITE? Ora, ora... Se não meus dois pardais prediletos. E que temos mais... vejamos... um homem! Tadinho ... se ele tinha pretensões com a menina..., nem começou a namorar...que triste... já vai ficar viúvo...

Morte virando-se para os anjos: Passarinhos? Só estão vocês aqui e esses mortais? Não imaginavam que poderiam me impedir para sempre...Eu esperava encontrar uma multidão de anjos neste lugar. Tanto que vim preparada essa noite. Vejam, comigo meus companheiros.

Aponta para os quatro:

Desesperança.

Medo

Desespero

E é claro, Dor.

Morte: Vocês já devem ter visto seu trabalho por aí. Profissionais de verdade. Essa noite é noite de trevas e de escuridão. E quanto a vocês, passarinhos. Eu hoje abri uma exceção. Essa noite,

até os anjos... morrerão...

Começa a luta entre as quatro potestades e os dois anjos. Cada duas potestades luta com um único anjo.

O fisioterapeuta observa atento, sem se mover

Os dois anjos são vencidos (duração da luta até o final da musica)

As quatro potestades arrastam os anjos e os lançam ao chão.

Morte: Fácil demais. Agora...onde estávamos quando fomos interrompidos? Ah! Conduzir docemente uma doce menina a um doce sono eterno...

Fisioterapeuta coloca a mão sobre a Sarah.

Fisioterapeuta: Não está esquecendo de ninguém?

Morte se espanta: Uh? Mortal? Você pode me ver? Um ser humano que me enxerga? Cada dia eu fico mais espantada com essa existência. E... (fitando-o)...como se isso não bastasse... que estranho...eu não te reconheço!!! E olha que possuo uma grande memória...conheço a todos os que já nasceram ou não puderam nascer...e principalmente a todos os que vão morrer. Muita gente. E por incrível que pareça... não reconheço a você..

Fisioterapeuta: Mas eu conheço a você. E digo que, verdadeiramente, você não irá tocá-la. Nem agora. Nem nunca.

Morte: Risada sinistra (há-há-há-há!) E você, filho de adão, descendente de homem, com que exército pensa em me impedir? Com aquele ali? (aponta para os anjos caídos)

Fisioterapeuta: Não necessito de um exército.

Musica 15 triunfal

(Efeitos especiais - Bom era ter um ventilador gigante nessa hora)

Fisioterapeuta se levanta. As quatro potestades caem. Ele caminha em direção a morte. As quatro potestades são afastadas como se uma ventania as varresse. Os dois anjos se levantam, fazem reverencia e se afastam. Ele se aproxima da morte que começa a tremer, ajoelha-se e deixa cair das mãos a foice.

Morte: Quem é você, filho do homem?

Fisioterapeuta: Alguém que você pensou que tinha vencido certa vez. Alguém , sobre quem, você cantou vitória, por três dias.

Projetando no telão:

Colossensses 1:15

E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.

A morte se levanta, coloca o capuz e em silencio, com seus asseclas, ainda tremendo, vai embora.

O Fisioterapeuta se aproxima de Sarah, beija-lhe o rosto e lhe cobre. Então sai acompanhado dos dois anjos. (até aqui a musica triunfal)

Placa com aplausos

Ato X!

Voltam Carlos, Camila, Renata, pela manhã. Convidando a Sarah para um grande baile.

Renata: Acorda preguiçosa!

Sarah cheia de sono: Que horas são?

Camila: amanheceu criatura!

Carlos interrogando: O que a senhora estava fazendo ontem a noite?

Sarah: O mesmo que tenho feito nas últimas semanas. Fisioterapia.

Renata: Até que horas você fez a fisio?

Sarah: Acho que até umas oito horas da noite e então o médico...

Sarah fica estática...

Sarah: ele tinha ficado aqui, estava chovendo e eu adormeci...

Renata, Carlos, e Camila em uníssono: Sei.

Renata rindo: Quer dizer que ele ficou até tarde aqui...

Sarah: Tava chovendo! Queria que eu expulsasse ele?

Carlos: Hum... Tá rolando um clima...

Sarah para Camila: Camila, me empresta a muleta, faz um favor...

Renata: Crianças, parem com isso. Carlos, para de implicar com a Sarah. Nós estamos aqui pra te CONVOCAR pra um baile que a gente está fazendo em homenagem de quem? De quem?

Camila e Carlos cantando: Da Sarah!

Camila: Vamos Sarah! Vai ser o maior show! A gente vai se divertir, vamos dançar e você descansa um pouco desse tratamento.

Sarah: E como é que vocês pensam que eu vou dançar com essa coisa – aponta para a muleta? Que graça tem eu ir para um baile e ficar sentada?

Carlos: Porque você não convida o fisioterapeuta. Sério! O cara é superlegal, tem trabalhado pra caramba, porque veja só, pra te agüentar, esse cara cara é um santo homem...

Sarah tentando acertar o Carlos com a muleta.

Camila: Vai Sarah! Convida o médico! Taqui o telefone lá do hospital.

Sarah: Não sei não...

Grupo em coro: Liga! Liga! Liga!

Grupo de violões: Liga! Liga! Liga!

Placa com dizeres para a platéia: (Liga! Liga! Liga!)

Sarah olhando para a platéia: Ta bom! Ta bom! Eu ligo.

Placa com aplausos de um lado e depois silencio do outro.

Sarah pega o telefone celular de Camila. Disca para o telefone do hospital. O pessoal atende, mas informa que lá não existe nenhum serviço de fisioterapia particular. Também não enviam médicos para as residências.

Carlos: Fala sério! Então você foi atendida por um fantasma!

Renata: Para com isso Carlos! Sarah? Talvez ele não seja do mesmo hospital. Ou talvez tenha feito isso sem que o hospital tenha recebido os relatórios.

Sarah: Mas, eu não tenho mais como localizá-lo a tempo.

Camila: Não importa. A gente quer você lá. Ele deve ter um modo de saber que vai haver o baile. Sei lá, ele sabia de tanta coisa. Até me assustava de vez em quando.

Carlos, se apronta que a gente te pega as oito.

Sarah acena com a cabeça enquanto o grupo se despede.

Musica 16 triste.

Sarah sozinha. Ela se dirige para a porta lateral e sai.

Ato XI

Musica de Rock – Grupo arrumando em velocidade fantástica a festa. Quando terminam de arrumar, posicionam as cadeiras e chega o grupo para a festa, primeiro as meninas para se assentar na cadeira. Sarah chega por ultimo.

Antepenúltima musica 17 – para a festa

O salão repleto de bolas de festa. A festa começa com um grupo dançando. Sete cadeiras na parede do salão com sete meninas bem vestidas, Sarah sentada no meio. A Festa começa com os rapazes convidando as moças, que começam a dançar. Uma a uma, alternadamente são tiradas para dançar. Menos Sarah, que fica sem graça, sozinha sentada na última cadeira enquanto o grupo dança, mexendo em sua muleta.

sai a musica da festa e entra outra muito linda (semelhante tipo The Book of Love – Peter Gabriel)

Do fundo da platéia caminhando lentamente vem o fisioterapeuta com roupas de gala. As meninas da festa olham todas espantadas, enquanto os casais se afastam. Ele sobe no palco e se dirige para Sarah. Lentamente estende sua mão para ela e lhe convida a dançar.

Placa (platéia de pé)

Grupo de violões pede que o pessoal se levante.

Sarah: Eu não posso dançar de muletas.

Fisioterapeuta: É verdade. Por isso essa noite e pelo restante de sua vida, você terá que dançar sem elas.

Ele pega a muleta e lança longe. Puxa a Sarah do banco que consegue se firmar com os dois pés. Então segura as mãos de Sarah e dança com ela pelo meio dos outros convidados. O Fisioterapeuta roda com ela que começa a rir.

Placa (Aplausos ruidosos)

Ato XII

Musica 20 FINAL Espetacular para o convite. Durante a duração da musica, a explicação da peça, um convite a salvação deve ser realizado enquanto a musica estiver tocando convidar as pessoas para irem a frente e depois orar por elas.

Lista de personagens:

(06) Seis casais para as danças nas festas.

(01) Um narrador

(01) Camila

(01) Renata

(01) Carlos

(01) Lucas

(01) Sarah

(06) Seis moças para a cena da fofoca.

(01) A morte

(04) quatro Potestades

(02) dois anjos

(01) Hera – a badgirl

(01) médico chefe

(02) dois Enfermeiros

(03) três violeiros

(06) Pessoas de apoio para cantar no grupo de violeiros

(01) Fisioterapeuta

(02) Seis casais para a festa final

(01) Menina da Placa

Paralelos com as Escrituras:

Dança final com a Sarah:

Jo 10:10 - O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.

Quando Carlos fica impressionado com o fato do Fisioterapeuta saber tanto sobre Hera:

João 1

47 Jesus viu Natanael vir ter com ele, e disse dele: Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.

48 Disse-lhe Natanael: De onde me conheces tu? Jesus

respondeu, e disse-lhe: Antes que Filipe te chamasse, te vi eu, estando tu debaixo da figueira.

49 Natanael respondeu, e disse-lhe: Rabi, tu és o Filho de Deus; tu és o Rei de Israel.

50 Jesus respondeu, e disse-lhe: Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? Coisas maiores do que estas verás..

Quando o Fisioterapeuta levanta a Sarah no final

Ato 9:34 - E disse-lhe Pedro: Enéias, Jesus Cristo te dá saúde; levanta-te e faze a tua cama. E logo se levantou.

Quando as potestades são lançadas no chão:

Colossensses 1:15

E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo.

Quando Hera perde perdão a Sarah

Colossensses 2:12

Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade;

Quando o fisioterapeuta diz que a morte jamais levará a Sarah

Jo 8:51 - Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morte.

Quando a morte tem sua arma caindo no chão:

1Co 15:55 - Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?

Quando o segundo anjo conversa com o primeiro:

Zac 2:3 - E eis que saiu o anjo que falava comigo, e outro anjo lhe saiu ao encontro.

Quando o primeiro anjo recebe um decreto das mãos do segundo,

Apo 10:8 - E a voz que eu do céu tinha ouvido tornou a falar comigo, e disse: Vai, e toma o livrinho aberto da mão do anjo que está em pé sobre o mar e sobre a terra.

Welington José Ferreira